Empreendedorismo e Linguagem
Norma Möller de Freitas
Profa. do Laboratório de Linguagem da FEAD
Ciente de sua dificuldade com a língua portuguesa, notadamente com a escrita, uma jovem amiga me procurou para fazer uma revisão do esboço do seu Plano de Negócios. Ela teve uma boa idéia a respeito de uma empresa de prestação de serviços e foi a uma incubadora que lhe deu orientação e apoio. Sentiu-se insegura na hora de colocar as idéias no papel.
De fato, havia erros de concordância, de pontuação, de ortografia, entre outros. Alguns capazes de deixar inseguro um futuro contratante ou um parceiro com relação à capacidade da jovem candidata a empreendedora. Afinal, o Plano de Negócios será apresentado a alguém e tem que causar uma boa impressão, principalmente pelo seu conteúdo. E não pode gerar críticas que o desvalorizem por erros, às vezes, pequenos.
O empreendedor, principalmente o da área de prestação de serviços, gosta muito de dizer que “tem que matar um leão a cada mês, quando não a cada dia ou semana”. Isso significa que: ou que tem que conseguir um novo cliente a cada período, ou que tem que mostrar, permanentemente, resultado a um cliente já conquistado. A arma que mata o leão tem sempre que estar envolta num processo eficaz e correto de comunicação, com o uso adequado das linguagens oral e escrita.
Pouquíssimos empreendedores podem ter por trás de si um comunicador pago, uma agência de publicidade, por exemplo, para vender a sua idéia e o seu produto. É ele mesmo, com sua atitude necessariamente proativa, que é o motor do processo de evolução de uma idéia que agregue valor à sociedade até a sua efetiva implantação e colocação no mercado de um novo produto ou serviço, que vai atender às necessidades de um cliente.
E diversas etapas desse processo exigirão eficácia na comunicação, o que pressupõe um domínio pelo menos razoável das linguagens escrita e oral. Vamos, portanto, analisar as etapas por que, de acordo com as consultas que fiz, passa o empreendedor, e como o uso correto ou incorreto da linguagem pode ajudar ou prejudicar seu negócio.
A primeira etapa é a identificação de uma oportunidade de negócios dentro de um mercado globalizado e competitivo. Uma boa idéia de serviço ou produto, terceirização e franquias são algumas das alternativas. A informação é o principal instrumento para uma decisão correta. Ela virá de algumas conversas com quem já está no mercado e, também, da leitura atenta e entendida de livros, revistas, folhetos, propostas, contratos. Muitas vezes o futuro empreendedor aumenta seus riscos ao entrar em determinado negócio sem conhecê-lo bem, pois tem uma certa preguiça de ler jornais, revistas e a letra miúda de contratos e condições comerciais ou, simplesmente, não tem condições de compreender o que lhe é proposto por escrito.
Como segunda etapa, o empreendedor fará uma análise dos riscos que vai correr. Números e projeções serão os principais instrumentos de decisão. Pesquisa de mercado, com metodologia comprada, precisa ser bem analisada. Um aspecto fundamental, complementar à pesquisa, porém, envolve a necessidade de comunicação eficaz: o contato direto com o mercado, a conversa com os clientes em potencial para compreender bem suas necessidades e tentar entender a sua real Intenção de comprar o novo produto ou serviço.
Em seguida, vem a etapa do Plano de Negócio com o qual abri este trabalho. É um fortíssimo instrumento de comunicação para que incubadores, futuros sócios ou financiadores, entre outros, entendam bem a sua idéia e tenham uma compreensão clara, precisa, de sua viabilidade e de como vai ser implantada. Um Plano de Negócios mal redigido, muito extenso ou muito resumido, contendo erros, como o esboço que mencionei, corre o risco de não sair da primeira mão que o receber. Ou, então, de se perder tempo com a sua correção - com custos e atrasos para o projeto -, fora a má impressão inicial deixada. E a primeira impressão, se não fica para sempre, demora a passar e exige muito resultado positivo para que seja esquecida.
Feito o PN, entendido e aceito por algum investidor, que vai se tornar sócio ou apenas investidor, vem a etapa da negociação, a ser seguida pela da formalização. Aqui vale o ditado de que “o que é combinado não é caro”. Evitar problemas futuros por má compreensão do que está sendo definido, e, pior ainda, por formalização com erros de um acordo societário, é um objetivo que pode ser evitado com o bom uso da escrita. Ainda que esteja sendo assessorado, é o empreendedor que sabe o que quer e o que tem que ser transmitido de maneira correta e entendê-lo com precisão quando o acordo estiver fechado. É uma forma
de evitar que o barato saia caro.
Aberta a empresa, vem a orientação de colaboradores, a negociação com fornecedores, a coordenação do trabalho executado. E vem o processo de vendas, com divulgação, entendimentos verbais, formalização de propostas e de contratos, prestações de contas, relatórios para mostrar e deixar registrados os resultados obtidos. E fazer a empresa crescer e sobreviver, comunicando-se sempre com o seu mercado e com o seu público interno.
Enfim, ao se decidir pelo empreendedorismo, a pessoa sabe que vai correr riscos, vai trabalhar mais do que trabalharia se fosse empregado, vai necessitar de mais conhecimentos tecnológicos e de mercado. Sabe que vai ter que ser um leão para poder matar outro leão a cada de vez em quando. E que precisa se preparar para isso, de preferência, num curso superior. Mas deve saber que, como vai ser um leão que fala, ouve, escreve, negocia, contrata, precisa se preparar, também, para o uso correto da língua portuguesa. Afinal, o Plano de Negócios tem que ser feito de maneira a impressionar bem quem vai ler. E quem sabe, amanhã, o mercado não vai exigir dessa pessoa um Certificado da ISO 9000. Aí, necessariamente, tudo vai ter que ser escrito. De maneira correta e compreensível.